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FELICIDADE A QUALQUER CUSTO?

A sensação de que precisamos ser (ou parecer!) felizes pode nos deixar mais tristes e custar caro

"E foram felizes para sempre". Imagine ter uma vida assim, como a anunciada nos finais dos filmes. Parece irreal? Mas é exatamente desse jeito que muita gente quer viver. Emendar conquistas, festas e viagens, colecionar sorrisos e elogios, manter-se sempre jovem, ter um corpo invejável, prestígio, dinheiro de sobra e ser amado por todos é o desejo de muitos. Sem nenhum dia difícil entre todas essas coisas boas.

Só que ninguém consegue trazer a perfeição da ficção para a realidade. E é aí que nasce o problema. Começamos uma maratona em busca da felicidade definitiva, eterna ou qualquer outro termo que possa definir esse paraíso. Uma corrida sem descanso para manter um estado de espírito sempre transbordando contentamento e bem-estar.

Vale tudo para alcançar essa felicidade idealizada e supervalorizada nos dias de hoje. Desde conseguir um cargo alto numa empresa concorrida, marcar presença em eventos importantes, ler livros de autoajuda ou comprar os produtos mais caros das vitrines. Ela é tão cobiçada porque funciona como uma chave para entrar no mundo dos vencedores, dos que realmente contam. Em outras palavras, quem não faz parte do rol dos felizes corre o risco de se sentir à parte desse mundo. O que resta a essas pessoas é ficar num compasso de espera para que a felicidade chegue e não vá mais embora. Mas essa espera tem consequências para a saúde emocional.

Perfeição tem preço

Quem não sonha em ser feliz como nos comerciais de margarina? A publicidade afirma que isso é possível. Basta comprar os produtos e serviços lançados diariamente, sob medida para cada necessidade que temos e as que ainda nem sabemos ter. Acreditamos nessas promessas e esperamos que elas nos livrem de sofrimentos, tédio e carências emocionais. Ou seja, que completem o que falta em nossas vidas.

Aí cabe aquela pergunta que muita gente faz. A felicidade pode ser comprada com dinheiro? "Somos impulsionados a consumir, mas ao mesmo tempo todos os aspectos das nossas vidas passam a ser moldados por essa lógica do consumo. Vivemos um tempo que a angústia e a dor convivem lado a lado com esse desejo de felicidade plena que o gozo das mercadorias oferece", diz Jonnefer Barbosa, professor de filosofia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Vem daí a ideia de que querer é poder. Mas na prática, não funciona assim. A verdade é que nem todos podem ser ricos, famosos, belos e bem-sucedidos. E mais cedo ou mais tarde, nos esbarramos em nossas limitações.

A vida é repleta dessas situações em que somos confrontados com as nossas próprias impotências. Sempre que a gente entende que não pode fazer alguma coisa, é o primeiro impulso para a autoconsciência Jonnefer Barbosa, professor de filosofia

Achar que o carro do ano, o celular que acabou de ser lançado, ou roupas e acessórios de grife têm o poder de nos aproximar da felicidade é uma ilusão. Muitas vezes acontece exatamente o contrário. É comum essas aquisições virem acompanhadas de uma sensação de angústia e ansiedade. Para compensar o vazio que insiste em permanecer, tratamos de renovar nossos desejos de consumo.

Realidade paralela

Don't worry, be happy!
Good vibes!
Gratidão!
Namastê!

Todos os dias as redes sociais são inundadas por palavras e hashtags que mostram como a internet é um mundo perfeito, habitado por pessoas boas e felizes. Esse festival de pensamentos positivos até ganhou uma expressão da moda: positividade tóxica. É ela quem dita as regras de como devemos nos comportar no ambiente virtual. Mas além do vocabulário, é preciso comprovar a felicidade com fotos tiradas em lugares lindos e bem frequentados, exibindo sempre o melhor sorriso.

Em troca, esperamos curtidas e comentários que atestem que a felicidade que estamos mostrando é real. "Vivemos uma época em que as pessoas têm o poder de controlar como as outras vão julgá-las e acabam jogando esse jogo. O que é ruim porque a gente amadurece quando vai fundo nas emoções difíceis. Elas sinalizam coisas importantes", afirma Jocelaine Martins Silveira, professora de psicologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Muitas pessoas escolhem as redes sociais para expressar seus conteúdos emocionais mais importantes. Mas se não recebem as reações esperadas às postagens, elas têm a sensação de estarem falando ao vento e ficam emocionalmente abaladas. Sentem como se estivessem sendo privadas do efeito de uma droga psíquica poderosa. Então a felicidade construída com tanto trabalho começa a ruir.

Enquanto estamos tentando fazer com que a nossa grama pareça mais verde que a dos nossos vizinhos, nos esquecemos que mais uma vez estamos imersos no jogo do consumo. "As redes sociais são formatadas num modelo que é de capital humano. Cada pessoa ali se coloca como uma marca, uma mercadoria. É um lugar onde a todo momento somos bombardeados pelas mais diversas formas de sugestão no sentido de aliciar nossos afetos", explica Barbosa.

A importância de acolher o negativo

A ideia de felicidade definitiva cai por terra quando nos lembramos de que somos mortais. E uma felicidade ligada à finitude nunca é completa, analisa Barbosa. Ele frisa que a vida é feita de momentos felizes e que a pressão de experimentarmos essa sensação o tempo todo serve apenas para nos colocar num circuito de angústia infinito. Por esse e outros motivos, varrer as emoções negativas para debaixo do tapete é algo que jamais devemos fazer.

Por mais paradoxal que pareça, aceitar que na vida nem tudo são flores é importante para ficar bem. "Não que a gente não deva querer e almejar o bem-estar. Mas ele inclui vivenciar com profundidade as angústias, as tristezas, a dor de uma perda", salienta Silveira. Guardar tudo ou tratar com superficialidade o que se passa dentro da gente só embaça a porta de saída de um sofrimento.

Banalizamos as emoções difíceis por medo de nos sentirmos julgados ou inferiorizados, quando o melhor a fazer pela nossa saúde psíquica é dar nome ao que estamos sentindo e refletir sobre como as coisas aconteceram até chegar naquele ponto. "Assim ficamos muito mais perto de achar uma maneira saudável de lidar com uma pessoa ou uma situação", acrescenta Silveira. Contar os nossos sentimentos para uma pessoa próxima e confiável também ajuda nesse processo.

Para mudar essa tendência moderna de calar emoções negativas, muitas escolas têm estimulado seus alunos a falar sobre questões internas, de modo que aprendam a ser resilientes e emocionalmente inteligentes. O mesmo acontece em empresas que convidam os colaboradores a expressar o que estão sentindo, sem que por isso sejam considerados maus funcionários. "Temos que tomar cuidado com essa banalização de sentimentos negativos. Hoje em dia há uma tentativa de suprimir as manifestações pessoais de todos nós", avalia Levitan.

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